sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Da comovente humanidade nossa


O que há de mais comovente em alguém são os medos disfarçados, implícitos ou negados, admitidos num acto extremo de cumplicidade e desamparo. Ou os pecados gozosos, dolorosos, gloriosos, mortais, veniais, vergonhosos, claro, confessados e com convite subentendido a partilhar, elaborar, dividir a culpa que deixamos de sentir, rir juntos, aperfeiçoar, aprender requintes e nos absolvermos mutuamente. Ou os vícios inofensivos ou perigosos, ou as inseguranças, ah meu deus, que lindas são as inseguranças, aquelas medidas das potências tão menores e insuspeitas, que nos aproximam e nos deixam reconhecer por trás do personagem calculista e frio.
O que há de mais comovente em alguém é a sua própria humanidade admitida e compartilhada, sem receio de que o outro faça disso uma arma mortal, mas ao contrário, com o desejo quase descrente de encontrar o eco de um mesmo grito, a sede de uma outra sede igual, o reflexo familiar do outro lado do espelho.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Convicção


A educação não tem grau académico

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Haiti


O Haiti é um país ainda mais destroçado. Um país que vive uma realidade mortificante, que vai ter repercussões por muito tempo. Não vai passar dentro de dias, quando os holofotes do mundo se apagarem, quando as páginas dos jornais amarelecerem, quando as novas notícias nos sites substituírem as velhas sobre aquele país pequeno e pobre, quando os posts nos blogues passarem a focar outras matérias. Quando as associações humanitárias começarem a sair.
Mesmo depois de tudo isto acontecer, o Haiti vai lá estar. O povo do Haiti também. O país é o povo e este não tem para onde ir.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1 + 1 = 1


Duas infelicidades quando se cruzam são dois monólogos e, já se sabe, dois monólogos não fazem um diálogo. Deste modo, nunca conseguem dialogar. Uma quer sempre ser maior do que a outra. Quando uma decide contar uma tristeza, aumenta a sua história para evitar a concorrência.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A voar...


2010 chega a voar. E não se pode voar a olhar para o que fica nas costas. Eu gosto de voar, aliás, mesmo sem voar eu vou. Por favor, não me perguntem o que hoje já sei. Serviria de alguma coisa sair diariamente de casa 10 minutos mais cedo? Seria diferente? Ou ter chegado à vida adulta mais cedo? Ou viver noutro país? Convenhamos, é extraordinariamente cómodo pensarmos que, em determinada altura, optámos por uma realidade desajustada, errada até. Pensarmos que existe uma realidade paralela, mais confortável, que sempre nos acompanhou sem por ela darmos. É um capricho egocêntrico imputar responsabilidades ao que não aconteceu. Partir a conta com quem não se conhece. Pois, não é assim que as coisas se fazem. Sem a nossa presença física nenhuma realidade se satisfaz. Mesmo estando é o que é. Porque ninguém salvaria um amor que tivesse de acabar, como ninguém compreenderia os seus pais se tivesse nascido antes, como ninguém seria são se guardasse memórias da dor. A realidade não multiplica mas torna uno. Passa tudo pela aceitação, contrariamente à tábua rasa. São confortáveis estes entendimentos. O aceitar das dores em pretérito ajuda-nos a diminuir-lhes a intensidade. Continua tudo possível. As possibilidades não morrem com o tempo. Está-se sempre a tempo. A viagem na felicidade ainda se pode fazer. A nossa história é uma soma de tanto. É uma soma de tudo. Quantas destas horas as passei sem ver? Um terço? Uma década então. Aguma coisa terá ficado pelo caminho, alguma coisa terei perdido. Outra ganho… não sei bem. O que não me lembro posso ainda imaginar. A memória não se contraria. O sonho é poesia. Sonhar, melhor, imaginar é treinar com vontade. E eu, bem eu sempre treinei melhor do que joguei. Feliz 2010.