quarta-feira, 26 de março de 2008

O dia em que fuzilaram o guarda-redes da minha equipa


Nós éramos os do muro, sentadiços. Os outros corriam os futebóis, dispensavam suores. Enquanto nós, não. As meninas passavam, com suas batas brancas, pareciam aprendizes de garças. Os outros perseguiam-nas caçando simpatias. Nós ficávamos no muro, olhos trincando as sombras femeameninas.

Nosso futebol era ali, na mesa de matraquilhos do Bar Viriato. A mesa de jogo dormia fora do bar, ao dispor do luar que tombava no pátio. Era tão pesada que nenhum ladrão punha nela sua cobiça. Os roubadores daqueles tempos tinham dedos tremedrosos, eram gente de pequeno empreendimento.

Naquele pátio do Bairro Matacuane ficava o estádio do nosso encantamento. Era ali que vibravam as nossas multidões quando a pequena bola de madeira escorrecaía no buraco da baliza. Mas nós, sem idade e com as raças todas à mistura, só podíamos frequentar o imaginário relvado no intervalo dos outros. A mesa de matraquilhos era nossa só quase às vezes. No resto, pertencia aos tropas, soldados que abundavam por aqueles lados. O Viriato ficava na fronteira dos mundos, subúrbio dos subúrbios.

Sempre quando há quartéis, os bairros perdem seus nomes civis. E o nosso lugar era agora chamado de Zona do Quartel. Com o novo nome vieram as prostitutas e encheram os bares com suas grandes pernas cruzadas. Mesmo em nossos sonhos aquelas pernas se descruzavam sob lençóis que transpiravam. Por isso, nossos pais já não permitiam que muito parássemos pelos lados do Bar. Os receios deles careciam de fundamento. Nós só entrávamos no exterior. Lá dentro, apenas nossa curiosidade espreitava.

Mas a brincadeira dos matraquilhos custava cada vez mais preço. A moeda roubávamos lá em casa descarteirando eu de meu pai e Nandito não se sabe de onde. A moedinha abria o momento mágico. A gente metia na ranhura e a máquina expedia suas nove bolinhas, já tão gastas que coxeavam em cada volta de seus épicos percursos.

Foi quando se deram os casos chamados para estória. Primeiro acharam graça: apareceu um dos bonequinhas pintado de preto. O avançado do centro da minha equipa tinha mudado de raça, da noite para a madrugada. Os soldados portugueses, quando chegaram, fizeram riso e alcunharam o novo matraquilho de Eusébio.

Depois, apareceram mais três avançados, subitamente transcoloridos. Ainda encontraram piada, anedotaram. Distribuíram mais nomes: Coluna, Vicente, Matateu. Só o dono do bar é que ventilou ameaças: se descubro o sacaria do pintor, ai de quem!

Um dia a mesa amanheceu com todos os jogadores de raça negra. No Bar Viriato, bem luso de seu nome e propriedade, figuravam os matraquilhos mais africanos do mundo.

Eu e Nandito apresentámo-nos bem cedinho, madrugada recém-estreada. Não tocámos no jogo, ficámos espectadores. Olhávamos as gotinhas de cacimbo, rebrilhando nas botas dos bonequinhos.

Até que surgiram os tropas, barulhosos, donos. Chegaram-se aos matraquilhos e trocaram suas admirações. Dessa vez, ninguém riu. Ao inverso, havia uma raiva partilhada que multicrescia. De repente, um dos soldados se deu de berrar salivando raivas. Os outros tentavam de acalmar-lhe as fúrias. Mas nada, o homem se atestara de ódios. Súbito, retirou do cinto uma pistola e em volta fechou-se o silêncio, solene. Parecia cinema, o Nandito olhava de espanto cheio: aquilo já não era Viriato, era o saloon. E aquele soldado acenando a pistola era o Clint Eastwood, o Rambo dos tempos. Quem sabe foi por causa desse estado de maravilhação que o Nandito não ouviu gritarem quando o soldado louco apontou sobre o guarda-redes da minha equipa. O tiro soou e o pequeno boneco esvoou, salpicando estilhaços, mais súbitos que o sangue.

Ainda hoje aquele tiro continua ressoando em minha vida, junto com esse outro grito que, por engano de um relâmpago, me pareceu sair do bonequinho alvejado.
Mia Couto

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